quarta-feira, 15 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
Não tenho mais dentes. Tudo me é amargo. Ou oferece-me sangue que me adoce? Uvas fervidas no pão são doce, seu cheiro é doce, sua textura é tenra. Engana-te: não há sementes a serem cuspidas, não há choro que saia de poros secos, há só o mar logo aí, em frente, rente a ti. Tu és o mar, imenso, disforme e envolvente. Eu tenho medo de coisas assim, já reparaste? Viste que raro me banho em suas águas?
Não posso mais com seringas, já não tenho veias. Imploro pelo meu último cigarro. Porque pior do que não o ter, é tê-los todos, acendê-los todos, um a um, nas guimbas já tragadas, nas memórias de guimbas. Penso: será este o último? E nunca é! Quem me trará o último, quem me anunciará que não há tempo para mais nada? [apenas para um último cigarro e para uma prece intercalada às tragadas] De olhos vendados, conhecerei sua voz? E a tua, continua igual?
Sem dentes, sem seringas. Aceitas que eu te sorva?
terça-feira, 31 de março de 2009
nem um tal de desatinar,
coisa alguma a partir
de ti
[morri, morre: dorme!].
já é abril e venta
venta em porto alegre.
o frio chega de leve
chega à noite
e me acalenta.
surpreende-me à espera:
olhos, pupilas, pálpebras,
tudo imóvel
[menos meu penteado de fera];
a madeira do chão, meu corpo: fogo.
quem sabe me descongela?
desfaz meu sorriso fixo de bobo?
[eu, monalisa em chamas]
me engole, pois - já sei:
meu único desatino, meu bem,
são as borboletas púrpuras
[ao me espreitarem da janela]
a baterem suas asinhas,
e eu a arder.
domingo, 29 de março de 2009
fragmentos daquilo que foi, não foi, e depois quase foi de novo.
- Eu sou um olho fechado. Mas você sabia que quem vê é a alma? Preciso revelar um segredo: eu vivo apenas durante o sono.
- Talvez seja então a minha alma que se desintegra, até porque meu sono é minha morte. Mas, ainda assim, guardo-te: mesmo que não vivas mais por mim, vives em mim.
sexta-feira, 13 de março de 2009
houve um tempo em que tudo se renovava nesta época de recomeços: recomeço das aulas, reencontro dos amigos, que se dispersavam por aí nas férias, aquele frio na barriga, aquele deixar-de-ser-tão-criança e ir para o segundo grau!
minha mãe à beira do fogão, fervendo uvas e mais uvas... aquele cheiro se expandia pela casa toda... jamais poderia haver melhor doce. [e agora saboreio este, só: eu, os pães, as lembranças do que antes foram uvas.]
não há mais uvas, não há mais mãe a responder-me as minhas questões sobre a vida, negando-as, portanto respondendo-as sem saber. entre uvas e vapores, novidades, e ela se recusando a me enxergar, só me dizendo: come. queria tanto dizer a ela, me fazer entender, entender o que se passava... come! come que tá bom, prova só!
e provei de tudo. creio até ter estragado meu paladar, tudo se me afigura amargo, menos este pote de chimia barata, o que me resta em uma tarde vazia de sexta-feira: comê-lo todo, degustá-lo junto com meus fantasmas - porque hoje sou eu que os assombro!
[mas estou tranquila, sinto o cheiro da fervura da uva, minha nostalgia olfativa, que tudo renova.
é tudo novo de novo.]
terça-feira, 10 de março de 2009
Auf der anderen seite
[Ayten, fugindo da polícia turca][te mete com o título em alemão! quem vê até pensa que eu entendo alguma coisa ^^
é que era a minha chance, minha oportunidade de aqui mostrar toda a minha erudição :B]
já que o novo conto ainda não tá pronto, vou a mais uma resenha-indicação-encheção-pagação-de-pau:
ontem, também lá na Sala Redenção, vi "Do outro lado" (o título original dá título a esta postagem), co-produção de Alemanha e Turquia, dirigido por Fatih Akin.
eu diria que o filme vale a pena principalmente pela sequência de acontecimentos que, de forma não convencional, vai aproximando os personagens, que já possuem uma ligação estabelecida desde o início do filme. além disso, o contexto em que a trama é criada é muito atual e pertinente: a entrada de países pobres para a União Européia. o filme traz à baila o questionamento a respeito da certeza, da confiança que se tem em tal bloco político e econômico, como se a entrada nele fosse resolver, milagrosamente, diferenças que estão em âmbitos diversos e complementares: política, cultura, poder econômico. muito representativa uma cena, pequena e aparentemente sem importância, em que o advogado turco diz a Lotte: "isso aqui é a Turquia" (como quem diz: aqui não é a Europa, aqui tudo é possível e passível). a personagem Ayten, ativista política e fugitiva em Istambul e Hamburgo, mostra: não seria essa promessa de UE apenas mais uma forma de colonialismo das grandes potências em relação aos pobres? e em troca de quê? de um direito de ser um europeu geográfica e politicamente? é, hoje em dia tem seu valor um passaportezinho! mas, na prática, o que isso muda na vida das pessoas? os miseráveis passam a ter o que comer?
a forma como a trama se resolve também vale todo o filme, não nos subestimando com pieguices água-com-açúcar, com os velhos clichezões.
é uma pena que só tenha mais uma exibição neste ciclo, hoje às 16h. fica a indicação, no entanto. a Nana disse ter encontrado o filme para baixar.
quinta-feira, 5 de março de 2009
PERSÉPOLIS
este post não é propriamente uma crítica. não é uma resenha. é qualquer coisa elogiando o belo filme "Persépolis", ao qual tive o imenso prazer de assitir na última segunda-feira na sala Redenção da UFRGS. esteve em cartaz no guion ano passado, mas, só pra variar um pouquinho, interessei-me muito e acabei não indo.bom, mas o que falar? na hora h eu ñ sei exatamente o que dizer...
vamos pelo começo: o filme é uma animação, criada a partir dos quadrinhos autobiográficos de Marjane Satrapi, uma iraniana que acaba tendo que sair de seu país em função da revolução islâmica.
é, na parte histórica do oriente médio, sinto-me altamente prejudicada (é uma história de fato complicada, o que me faz não me sentir tão ignorante), só que não é fundamental saber dela para compreender o filme.
o que eu destaco, o que faz do filme algo tão belo, na minha opinião, é a forma como ela desvela a cultura de seu país para nós, ocidentais. a forma como ela, uma criança e depois uma moça, enxerga os costumes locais, como o uso do véu, por exemplo. eu quase cheguei a escrever aqui, mas pensei melhor e não o fiz: ia dizer que ela era uma pessoa comum. na verdade, sua família era altamente politizada e moderna para a época e o país, muito impregnado pela cultura religiosa. mesmo assim, ajuda-nos a repensar aquilo que chega até nós, quando o assunto é oriente médio e as pessoas que lá vivem. a forma como questões de identidade são trazidas também me agradaram muito, tanto aquilo que a menina de oito anos traz, como a futura mulher Marjane.
bom, outro ponto que me pegou em cheio foi a boa dosagem de drama e de humor: há partes dramáticas fortes, que me levaram ao famoso nó na garganta [e às lágrimas, ainda bem!], e as tiradas engraçadas da protagonista, lembrando muito a Mafalda em seu humor e personalidade. Outra personagem que merece destaque é sua avó, com suas lições, seus conselhos e seus jasmins!
é isso, ficou a dica!
[gostei tanto do filme, mas taaanto, que além de encher o saco das pessoas, para que lhe assistam, ontem comprei o livro (= ]
P.S.: a quem possa interessar, colo aqui o link com a programação da sala Redenção da UFRGS. a programação de março e de abril está um escândalo de boa. melhor: nóis não vamo pagá nada!!! entrada franquíssima!!!
P.S. 2: quem quiser ainda ver o filme, não priemos cânico [é, na sala Redenção não eras mais] : a preços beeem modestos, pode-se assisti-lo no SindBancários, até o dia 12/03. confira aqui os dias e os horários.
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