segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O dia em que matei minha mãe

kkkknunca gostei de fato de alguma coisa antes de deixar
kkkk(com meia dúzia de pertences)
kkkka casa da minha mãe. nada que eu possa apontar como (tão) terrível, desculpa decepcionar... nada que me tirasse propriamente do sério.
kkkk(na verdade, sim sim, havia uma porção de coisas de que eu tinha asco, que me punham a brigar com cada nervo do meu corpo, tentando afastar a sensação como bom brill na minha coluna vertebral, mas isso aqui é o de menos. simplesmente é muito cedo para começar a mentir).
davamo-nos bem, sempre conversamos sobre tudo, tínhamos uma relação aberta. temos?
kkkk-Então por quê?
sinto desapontar: esta dúvida é destinada a pessoas medianas, a pessoas cuja mediocridade quer sempre as respostas dos porquês, como se elas pudessem existir. é um casal romper e logo surgirem indagações Da Causa.
kkkk-Mas por quê?
na vida não é assim não. por exemplo, a vida sou eu agora, esquálida, deitada na cama,
kkkk- Aonde vamos? [hoje nada vai acontecer]
por que não parava de pensar um só instante? será que alguém conseguia essa façanha? mas e o pensamento, será que um pensamento fútil ainda assim é pensamento? penso então no tempo em que não pensava... ou, sabe-se lá, naquele tempo em que dava importância a inutilidades: havia um tempo em que era preocupante levar um homem para a cama e descobrir que usava cuecas inadequadas, ou que suas meias estavam com elásticos gastos, frouxas nas canelas
kkkk- ah!
manter as unhas sempre feitas, usar calçados limpos, tamancos de couro sem riscos e arranhões, saltos em perfeitas condições. disso dependia a minha autoestima.
kkkk- Hoje nada vai nos acontecer [só estamos aqui onde estamos... ora, é inevitável pra mim, mas me desculpa]
kkkknão sei mais há quanto tempo foi, só sei que nos olhos da minha mãe brilhavam lágrimas que não eram lágrimas. queria ela que eu não me fosse?
kkkk- Tu já tinhas ido há muito...
se sabia que eu não era dali, que as paredes, os móveis, os copos e quadros de mau gosto me sufocavam até a náusea. não sei exatamente quando se deu, o dia, a hora, o segundo exato em que (imagino eu) uma brisa entrou pelos meus ouvidos e anunciou
kkkk- Queres que eu morra?
kkkkhoje, coleciono imagens de morte em minha cabeça, as quais repercutirão pelo telefone. e isto é a vida
kkkk- Hoje não vamos transar
e não é à toa que, de bruços e com o corpo estirado, olho fixo para o aparelho antigo afixado na parede cinza: eu de fato gosto do meu telefone, vi isso em um filme – a protagonista possuía um preto idêntico, com um longo fio que alcançava toda a casa. assim como a mocinha da película, gosto de conversar sentada num canto qualquer da casa, de preferência sobre um piso gelado. mas isso também pertence a outros tempos,
kkkk- Hoje não vamos transar
quando logo em seguida
kkkk(com meia dúzia de pertences)
montei a minha casa, o meu santuário: cada enfeite, cada ângulo calculado, cada efeito da tinta misturada por mim com a intenção de dar a minha nuance, cada almofada... detalhes e mais detalhes.
kkkk- Que horas são?
kkkkque horas seriam? aproximo meu relógio do ouvido e ele, centenário (resgatado sabe-se lá de qual tumba), não emite ruído qualquer, há quanto tempo estaria já parado? quem viria me dizer as horas? a voz de sempre?
kkkk- Tu é que tens de trabalhar amanhã, eu por mim virava a noite a te ouvir falar
kkkka voz de sempre a me atormentar com tantas teorias e blá-blá-blás, é a minha própria voz (ou talvez só o timbre) autoanalizando-me: seria o tédio o responsável pela busca de tantas imagens de dor? ou seria o desejo de desafiar minha tão característica frieza, desestabilizando certos sentimentos e culpas íntimas?
kkkk- Promete que eu vou te ver denovo? [ainda que seja mentira]
testo-me o tempo todo, descortinar meus hematomas íntimos é hoje a mais perfeita forma de catarse, é a vida
kkkk- O silêncio absoluto é o amor
mas e o medo que sinto? ocorre que – e disto tenho uma certeza quase irredutível –, em alguma parte de meu cérebro, em alguma microrrerião, reside um tal ponto mítico, místico e energético capaz de concretizar as minhas fixações mentais: tenho medo, por isso, de matar minha mãe
kkkk- Queres que eu morra, pois?
não que eu queira, não que vá fazê-lo. então por que alguém ligaria, dizendo que minha mãe está morta?
kkkk- A dor maior você sabe: desenterrar a lâmina
kkkkainda não sofro, eu finjo e curto a inquietação aumentando à medida que o tempo passa
kkkk- Que horas são?
a atomosfera periclitante traz um sofrimento de algo que já falta, um sendo não sendo coisa alguma, lágrimas que não são lágrimas
kkkk- Isso nos faz ser mais
kkkkas chamadas de meu telefone
kkkk- Inferno!
agora ecoam dentro da minhaa cabeça, fazem com que as paredes, todo este cubículo de apartamento vibre. fecho meus olhos.... isso é real? não, nem existe mais telefone, joguei-o fora na semana passada, como pude esquecer-me disso?
kkkk- Existimos de fato algum dia?
fecho os olhos e não te vejo mais, não vejo a minha mãe também. o telefone geme agora igual a ti, não atendo, aperto a pálpebra, fico imóvel até quando não me peçam que eu prometa coisa alguma
kkkk- Prometo [e eu podia prometer-te apenas ausências]
kkkkvolto (será?) a consciência? ao menos tudo parou de vibrar, resisti à tentação de atender seja quem for, porque eu não quero mais ver ninguém,
kkkk- Queres que eu morra?
não!
kkkk- Ainda não.
eu não quero meus sentidos perturbados por timbres, sensações, olhares (e os mais tímidos perturbam, levaram-me à sucumbir, afinal eu não queria nada, era só um café, uma caminhada, uma cerveja, um cd ouvido no meu chão gelado), não quero teus toques
kkkk- Hoje não vamos transar
e se tudo isso não passasse de paranóia? por que não deixar com que me salvem disso tudo?
kkkk(porque, é claro, não tenho salvação. toda a minha vida deve ser, com certeza, uma paranóia de alguém, um folhetim intimista escrito por uma barata. e o que esperar de uma barata?)
kkkka grande verdade é que conquistei a solidão. não deve ser à toa afinal que escolhi tal trabalho, sempre dentro de casa escrevendo, escrevendo, escrevendo... ou traduzindo, vez por outra. por isso também não tenho telefone celular, quando vou à rua, faço-o por extrema necessidade, postar qualquer coisa no correio, do outro lado da rua, ir ao calçadão sentir a brisa. quaisquer telefonemas podem esperar.
kkkkentão me entendes? o café (que nunca tomamos, enfim), as caminhadas, os olhares, a minha mão que te tocava sem querer (querendo, é claro), a minha ida à tua casa, isso até pode ser uma desconquista
kkkk- Não foi por mal
kkkkjuro, tenta entender-me: fui criada para ser igual a todo o resto da humanidade, claro, igual aos bem-sucedios, aos bem vestidos, aos honestos e aos sinceros. eu, e o meu tipo biológico (infelizmente) sempre favoreceu, deveria seguir aquele modelo sensual de fêmea em busca do parceiro ideal, isto é, do bom-marido
kkkk(isto é: rapaz de família, extrovertido, respeitador e do tipo que banca uma mulher)
e a família toda, depois de todos os filhos casados e enfilharados, se reuniria aos finais de semana, encharcando-se de cerveja, entupindo-se de carnes gordas e maioneses caseiras. no rádio, qualquer coisa cafona animando.
kkkkque dia foi que passei a odiar minha mãe? podes ajudar-me, quem sabe, nesta questão crucial?
kkkk(ainda não é consenso o fato de odiá-la)
kkkkah, o horror que senti quando descobri o quão vil a minha mãe podia ser
kkkk-Mãe!
nada diferente do resto da humanidade, é claro, um dia a verdade mais profunda das coisas vem à tona.
kkkk- Ai, minha filha, que decepção! Imunda!
sim, ela já me disse,
kkkk- Por que me decepcionas assim, a mim que te criei com todo o meu amor?
kkkk[à minha imagem e semelhança]
mas eu digo que a grande e cabal diferença é que ela já me teve adulta, crescida o bastante para já ter descoberto que as pessoas são imperfeitas, que me tornaria também um ser (à sua imagem e semelhança) ridiculamente sensual e vulnerável durante a adolescência, uma adulta emocionalmente frágil, apta a me render e a me vender por muito pouco,
kkkk- Qual é a surpresa? Quem não sabe disso?
kkkke eu não sabia de absolutamente nada quando a ouvi em situações obscenas, e nem era com o meu pai... isso me causou transtornos, porque eu chamei e minha mãe
kkkk- Mãe!
e ela não veio. como pode ela não me ter ouvido? por que ela me ouviu e não veio?
kkkksuas certezas, segurança, fluidez? ou tudo isso era meu? que idade tinha eu?
kkkk- Mãe, que idade tinha eu?
eu nem conhecia a palavra fluidez... tudo mudou. eu já não queria deitar na cama com ela, sentia nojo de estar sobre os mesmos lençóis onde, na noite anterior, praticara atos tão imorais
kkkk- Hoje não vamos transar
kkkka partir de então, eu não dormia às noites. não sabia mais o que preferia: seu namorado ali com ela, engrossando o coro que não me deixava dormir, ou só eu e ela, o que me deixava de vigília por pura precaução
kkkk- Promete, mãe?
morria de medo de que, na ausência dele, ela fosse deitar com outros quaisquer. comecei a cuidar seus movimentos, a direção para onde olhavam os seus olhos: tudo se movimentava em direção a homens, os lábios mudavam movimentos. uma pergunta só não queria calar: eu teria coragem de surpreendê-la em um flagrante real? de repreendê-la?
kkkk- Queres que eu morra?
kkkktudo um dia esteve na sua ordem normal. aqueles mesmos lençóis foram disputados por mim e meus irmãos, todos queríamos dormir com a mãe na ausência do pai. acaso há algo que se iguale ao cheiro da pele materna? nada poderia ser melhor do que acordar de manhã e imediatamente passar ao outro lado da cama, enfiando a cabeça no travesseiro que fora usado pela mãe a noite inteira. hoje tudo não passa de podridão
kkkk- Nunca te prometi nada
kkkkmas sempre sugeriu! ou acaso não há trocas? um agradinho aqui, um desaforo acolá
kkkk- Eu que te criei, tás com o rei na barriga?
em pleno domingo
kkkk(e como eu odeio o domingo, e a segunda, e a quarta...)
kkkk- Me aceita!
porque eu era diferente, porque eu não sou igual aos outros, porque
kkkk(e por quê, meu deus, eu nunca fiz isto)
sim, eu confesso, eu nunca te disse o quanto já me feriste, por isso
kkkk- Hoje não vamos transar
meu telefone toca. não, tu não vais aceitar, tu vais rir e dizer-me
kkkk- Isso é normal? Hahahahahahahahaha
e não é
kkkk- Acaso és ainda virgem?
kkkk(e todo mundo sabe que não: Hahahahahaha)
por isso mesmo, peço-te a ti e a todo mundo
kkkk- Desculpa, não levem a mal
ouço o toque
kkkk- Triiiiiiiim, triiiiiim
e atendo, pois, à segunda chamada, ao telefone.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

incompletudes

tenho André
encontrei José
amei Pedro
e nunca pude, no entanto,
estar com Ana.
não mais recordo Juarez!
agora estou aqui
por isso não lá
só amanhã, talvez.

se escrevo, não leio
se leio, não vejo
se vejo, não releio.
uma vez que te entendo
não te encontro mais,
só nos perco.

meus porquês?
já se derreteram
como cera de vela acesa.
não há sequer um propósito
será, enfim, por acaso
um descaso do nosso acaso?
um caso a mais?
um amor a menos?

tocos, cadáveres de cigarros
pequenos, retorcidos no meu cinzeiro
[sempre à janela] prateado
descansam demencialmente
porque só são,
nem cogitam o estar
lá, aqui, mais-lá...

juntas as pontas
completam, matematicamente,
dezessete, vinte e cinco.
comigo, contigo, conosco
é diferente:
todos vivemos estando algo
cuja medida é sempre o tempo
que nem é o passado
[porque este já não nos pode pertencer]
nem é o presente
[porque ele de mim foge-me
a cada letra que escrevo]
tampouco é o futuro
[imprevisível ilusão constante].

minhas pontinhas de cigarro
devem desconfiar de que,
talvez à sua soma de vinte,
as despejarei ao lixo, seu fim
[e meu senso estético é o que isso determina
de julgá-las belas
em grande quantidade reunidas,
ou não].
e elas não ligam para isso.

elas não querem a completude.
elas são o que já foi
são dez, doze, oito suspiros
tragados, gozados.
e tudo assim está certo
esta é a ordem.
e elas não ligam.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

lusco-fusco



mais uma dúvida
uma dor desnecessária.
por quê?
doce, chegas como dádiva,
ficas e, doente,
deixa-me, de repente,
sem documento, voltas.
vejo sangue nos teus olhos
escorre meu suor,
soro-amargo-venenoso:
meu corpo todo chora agora.

sangue, lágrimas
suor, saliva...
não sei mais o que é meu,
o que é nosso, aonde foste.
ouço tuas pulsações,
convulsivas a invadirem-me
o corpo pelas têmporas.
te abraço a cintura:
"não vai não, fica".

nunca fica mais fácil
nosso abandono,
ou esquece-te
do demônio que nos une?
o diabo de nossos corações!
venta venta venta
forte, venta cinza.
e meu cinzeiro à janela,
a espreitar a rua.
talvez ele se jogue,
porque tudo agora é lá fora,
é ausência tua.

mas sempre ventou.
onde estávamos
que não percebíamos?
quando, me diz,
minha palavra não te sangrou?
vertemo-nos por completo,
esgotamos os fluidos possíveis.
foram-se até os poros,
que já se negam a existir.

resgatemos nossa dívida
com o além
equilibremos, pois,
o cosmo.
cabelos, unhas,
pelos, dentes
ossos: nós,
como os cadáveres!
mas sempre existirá,
não te esqueças disto,
o odor das flores podres
a nos perfumar
a cada crepúsculo,
a cada lusco-fusco.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

goodnight

chego aqui com muita vontade de digitar, mas talvez sem muito o que dizer.
faz tempo que postei pela última vez, faz tempo que os amigos cujos blogs leio também não postam.
estou tentando escrever um conto que não acaba nunca, e era ele que eu gostaria de estar postando agora. não tá dando...
sei lá, vamos ver aonde o teclado me leva...
é fim de ano, agora 00:38 do dia 26/12, e eu, assim como quase todo mundo, faço balanços e muitas reflexões nesta época. tá difícil chegar a conclusões, acho que pela primeira vez na vida não tô tendo muita noção do que vai se seguir, do que vai ser da próxima semana, do próximo mês... tudo bem, a idéia seria refletir sobre os acontecimentos do ano, pensar se foi bom, se foi ruim, se o balanço de tudo é positivo, se os fatos e as pessoas fizeram a diferença... não chego a muitas conclusões diferentes do óbvio: sim, tudo, absolutamente tudo fez a diferença! na minha vida, difícil o dia em que nada ocorre. mas este ano foi diferente, me sinto tão outra. o que de melhor aprendi foi a beleza da solidão e o quanto ela é capaz de trazer pessoas interessantes... mais ou menos como aquela metáfora do jardim e das borboletas. acho que aprendi a cuidar de mim.
quanto ao amanhã, estou tão reticente. reticente comigo mesma, reticente com todos. acho que pela primeira vez estou me permitindo isso, só não sei até quando [porque já há muito tempo aprendi a não me iludir em relação às supostas mudanças, minhas e dos outros]. um estilo 'let it be' de levar as coisas, o que até hoje nunca combinou comigo, aquela que sempre fez com que as coisas acontecessem, a autêntica forçadora de barra! nossa, e quantas barras já forcei por aí?! quantas vezes já tive o que queria? quantas vezes já quis me enterrar no primeiro buraco por causa disso?
enfim, acho que eu mereço estar justamente assim. muitos fatos ocorridos neste ano explicam tal [possível] mudança minha. afinal, tive que assumir posturas... quem diria, hein?! eu, aquela que sempre teve tudo sob controle, tudo planejadinho, milimetricamente... a vida acabou me mostrando que todo esse controle do amanhã não passa de mais um véu que vamos tecendo diante dos nossos olhos, porque isso gera o éter da segurança. assim como os textos que vou escrevendo, os fatos na minha vida têm vida própria. e eu não mando porra nenhuma.
encerro com um pequeno trecho de algo que o marquito escreveu:

Seres humanos não são meros joguetes da casualidade, tampouco são onipotentes senhores do próprio destino. Não são ingênuos fantoches do imprevisível, tampouco são hábeis titereiros de si mesmos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

somnambul

para as pessoas que lêem este blog [e que por acaso são minhas amigas na vida] não é novidade que hoje eu tô indo pro Rio. ai, esperei tanto por esse momento... agora tô aqui, fazendo hora, colocando em dia as leituras de blogs. decidi então postar algo de utilidade.
nesta semana, descobri, por acaso, uma banda mt mt mt boa. é, como me disseram, eu sou uma 'baixadora' compulsiva! o estilo da banda é trip hop [creio que quem gosta de portishead tb curtirá essa]. vão abaixo um vídeo do youtube [mas essa não é a versão original da música, está remixada... a música original é mt melhor] e o link para baixar o álbum. aaaah, o nome da banda é somnambul.




http://rapidshare.com/files/147184044/Somnambul_misturebamusical.blogspot.com.rar

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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

trauma

Acordei depois do acidente certo de que a partir de então meu crânio já não seria o mesmo. Cada átomo da minha pele, do tecido todo que a compõe, estava desintegrado. Meus ossos também já eram uma massa mole entre músculos e veias. Decidi dormir, para ver se definitivamente conseguia morrer.

Era traumatismo craniano, mazela que pode ser provocada por aqueles que querem dormir depois de uma batida tão forte contra qualquer superfície dura. Morri, de fato, dessa forma. Feliz, assisti sentado e quieto ao meu próprio velório, pensando em como é boa a sensação de vitória em relação a um objetivo alcançado. Como era fácil, pois, morrer.

Meu caixão estava fechado, e te ouvi explicando o porquê disso à Rafaela... seu rostinho claro e vivo foi o único elemento capaz de me trazer tristeza. Logo desviei meu olhar, eu agora não precisava sentir mais, não precisava negar, porque tudo era tão simples: vocês já não faziam parte de mim. E tudo estava tão igual, eu ainda era possuidor de uma massa corpórea, ninguém dava pela minha presença. Estranho. Aspirei longamente o ar, fazendo com que minha pele se rompesse em pleno meio da testa: o sangue começou a jorrar exageradamente, a pele mole que envolve meu crânio parece ter se desprendido, passei a vê-la diante dos meus olhos: meu universo passou a ser, por alguns instantes, de um cego que enxergava em um tom de bege-claro, e eu queria era enxergar tudo ali... já eram vinte pontos desfeitos ao redor da minha cabeça.

Toda aquela sensação primeira de liberdade deu lugar à de horror – meu crânio desfazia-se, enquanto todos me olhavam sem entender toda a cena; tu, escondendo em teu peito o rosto da nossa pequena, para que ela não me visse, meu silêncio, meu terror, minha vergonha, enfim. Não é todo dia que temos nossos próprios miolos espalhados ao chão, à mostra. Repentinamente, em meio a ossos, massa cinzenta, sangue, pensamentos meus materializavam-se: todos, perplexos, desvendavam o meu suicídio, a minha paz, o meu repúdio a esta vida indigna – porque ali no recinto estavam até inimigos meus, pessoas que, sem o mínimo pudor, ainda se deram ao trabalho de incharem suas pálpebras chorando diante do meu caixão. Imediatamente, todos me xingavam, amigos, parentes, inimigos, tu, Rafaela... fiquei só no banco onde estava, já sem nenhum vestígio de crânio.

Imobilizado, acordei novamente na cama de hospital, onde estava tranquilo o suficiente para que não me percebessem desperto. Foi assim que ouvi: apesar de imensamente lúcido, sem prejuízo das minhas faculdades mentais – o que já era um milagre -, eu seria um eterno tetraplégico. Mais uma vez, decidi pegar no sono. Quanto tempo mais eu conseguiria morrer?

domingo, 12 de outubro de 2008

lâmina

Já ouvi por aí que a vida é muito louca, várias vezes. Mas isso dizem aqueles excessivamente normais, a quem isso que se chama vida [fortuna?] causa estranhamento. A nossa vida até que era pacata, porque não éramos normais.

Um dia, tudo vai de um jeito, temos, um ao outro, a nós: e isso basta. Dizias que eu enlouquecera, mas digo-te que tal bênção ainda na minha porta não bateu. Declarei-me, sim, culpado do teu infortúnio, bem o deves saber agora. Agora, mais louco ainda me deves enxergar. Mas morte é morte: morte tua, morte minha também. Afinal, diga-me, não achas que eu merecia esta tão funesta participação, contribuindo para a verossimilhança [e, por que não, coerência?] no grand finale da tua tragédia pessoal?

Fico pensando que, de algum lugar, agora me olhas e fazes aquele teu meio sorriso [que equivaleria, em uma pessoa efusiva, a uma sorriso com todos os dentes à mostra]... bobagem: mais uma vez, estou querendo co-protagonizar algo contigo, fantasiando o teu consentimento. Meus pensamentos, contudo, insistem mais um pouco: não, não fui eu quem, nos pulsos, atravessou-te a navalha, mas sinto que esse talvez fosse o meu dever, a minha permanente vontade, o meu desejo mais interior: vivi até hoje só para isso e, ainda assim, fracassei, não fui eu a te matar. Para salvar-me, e salvar minha possibilidade de existência nesse mundo [porque creio em dor moral], confessei a tua morte.

E era preciso continuar matando. Entrei no teu apartamento, todo fechado... Tudo era tão úmido ali: escuridão em mim! Era o ar, seria a minha respiração espessa? Era tão proibido e impróprio tudo isso... era o cheiro sufocantemente jasmim. Quem o convidou, por acaso, que entrasse? A perfumar dessa casa os espaços vazios? Talvez fosse aquele teu perfume do oriente, teu sangue conservado numa poça em temperos e pétalas brancas.

Sentei-me, enfim. Passaste, igual àqueles idos quinze anos, correndo a me chamar aos gritos [Vem, vem, vem], lembras? De preto, e tu sempre mais que eu, íamos deitar-nos, no quintal anormal que então tínhamos na fazenda, sobre mortos que jaziam sabe-se lá desde quando: até quando? Com flores coloridas eu te cobria, flores grandes, pequenas, naturais, de tecido, de plástico. Tu a dizer-me: “Morro e me enterras assim, de preto, mas só aceito flores naturais: quero que apodreçam comigo”. Ai, que medo, eu pensava... mas jamais poderias desconfiar! Arrependo-me só de não te ter afirmado que quem ia antes era eu, mesmo adivinhando, desde a primeira vez que te vi, que tudo seria exatamente assim. Conforto-me, no entanto: quem poderia contrariar-te? A quem não convencias com teu simples respirar? Além disso, não me deixes esquecer, fracassei...

A paisagem era tu no teu apartamento, em que na mesma tarde adentrei. Só restava, dissonante, o quadro aquele do verde úmido [lembras?] onde às vezes habitávamos. Sempre imaginávamos, enquanto o clima aqui na cidade era frio, inóspito, nublado, molhado [o mais lindo dos climas], nossa vida naquela tela, fugíamos para um outro tempo da História também. E até que tínhamos talento na arte de nos imaginar: deitada sobre o tapete púrpura, teus pezinhos mal chegavam ao seu final... no meu colo, dava-te uvas ácidas à boca, observando, certeiramente, teus cabelos cor de mel, cujos cachos caiam sobre teus seios, sem, contudo, ultrapassá-los. O sol em ti chegava a refletir, no teu traje branco de rendas, na tua pele alva, rosada pelo mesmo sol. Era a típica tarde que, assim inventávamos, vadia. Em tais circunstâncias, que outro nome dar-te-íamos, pois, que não Luísa? Esse nós que inventávamos, em outro século, em outro lugar, a mim era o mais fácil de suportar. Naquela tarde em teu apartamento, doeu-me nunca teres levado a sério a nossa mais bela criação juntos, porque sempre rias e nos ridicularizava: “Imagina, meu caro, eu jamais usaria todo esse branco nojento, jamais teria os cabelos dessa cor desprovida de personalidade, ainda que assim tivesse nascido...”.

Paradoxalmente, tenho minha vida e já não a tenho, vivo agora no mais completo estado de zumbi, também por total falta de coragem: bastaria mais uma lâmina. Hoje fui a um psiquiatra, sabes, que me disse o que tomei como verdade imediatamente: eu preciso disso tudo, da prisão, da cela, do desprezo de todos para aplacar esta culpa que exala do meu hálito, por isso não me mato também. Culpa de ter nascido e não te ter matado, porque essa sim era a nossa criação mais verossímil, a que mais a ti parecia bela. Como sempre, tu, mesmo morta, ditando o nosso verossímil. Invadi a nossa casa para poder pôr a prova essa sede de matar, e matei aquela Luísa do quadro da parede, o nosso retrato mais mentiroso de todos os que inventamos... Por que ainda querê-la numa parede que nem era minha? Por não ser tua... nem minha mais? Luísa não era eu. Não era tu. Não era a lâmina que pelos teus punhos entrou. Não era o teu pullover preto, teus cabelos pretos. Muito menos as flores que dentro de ti embalsamei. Mas agora o serviço está finalizado, ao menos a ela consegui matar.