segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

incompletudes

tenho André
encontrei José
amei Pedro
e nunca pude, no entanto,
estar com Ana.
não mais recordo Juarez!
agora estou aqui
por isso não lá
só amanhã, talvez.

se escrevo, não leio
se leio, não vejo
se vejo, não releio.
uma vez que te entendo
não te encontro mais,
só nos perco.

meus porquês?
já se derreteram
como cera de vela acesa.
não há sequer um propósito
será, enfim, por acaso
um descaso do nosso acaso?
um caso a mais?
um amor a menos?

tocos, cadáveres de cigarros
pequenos, retorcidos no meu cinzeiro
[sempre à janela] prateado
descansam demencialmente
porque só são,
nem cogitam o estar
lá, aqui, mais-lá...

juntas as pontas
completam, matematicamente,
dezessete, vinte e cinco.
comigo, contigo, conosco
é diferente:
todos vivemos estando algo
cuja medida é sempre o tempo
que nem é o passado
[porque este já não nos pode pertencer]
nem é o presente
[porque ele de mim foge-me
a cada letra que escrevo]
tampouco é o futuro
[imprevisível ilusão constante].

minhas pontinhas de cigarro
devem desconfiar de que,
talvez à sua soma de vinte,
as despejarei ao lixo, seu fim
[e meu senso estético é o que isso determina
de julgá-las belas
em grande quantidade reunidas,
ou não].
e elas não ligam para isso.

elas não querem a completude.
elas são o que já foi
são dez, doze, oito suspiros
tragados, gozados.
e tudo assim está certo
esta é a ordem.
e elas não ligam.

3 pitacos:

boneca cega disse...

ihh esse foi complexo...mas se eu fizesse doutorado em você, eu certamente apontaria para a presença do cigarro e derivados em sua literatura como uma constante. rsrsrs

Lucas disse...

As pontinhas ingênuas nem percebem a beleza da fumaça dançarina e fujona!

Carolina. disse...

é mesmo!