CLICK HERE FOR BLOGGER TEMPLATES AND MYSPACE LAYOUTS »

domingo, 22 de novembro de 2009

três de vez

noite morta

Diáfana alma aparente
movimentos lentos
frente aos olhos vagos
olhos vesgos, olhos ocos
dos monumentos humanos
cuja lágrima
[sem olho]
dança docemente
pela madrugada errática:
mistérios gratuitos
à meia luz
do interdito gatuno
do vago suspiro
iluminado, limpo
já sem ar, entanto.

......................................................................

castelo de cartas ao vento

Despojo desejos
inteiros, golfados
pelo ralo
catártico
buraco profícuo
vasto vaso
vasto mundo
cerâmico, profundo
branco imundo.

Embaralho agora
meu único baralho amarelo-velho:
faço castelinhos de cartas
colossais, piramidais
feitos só com ás
e me acalmo
do sopro fraco de tantos ais
levados, desfeitos
feito folhas ao vento...

......................................................................

janela aberta pra dentro

mais um pacto
notívago, desfeito.
é o efeito das semi-asas...
minhas ao meio?
não sei ser pela metade.

saiam todos,
abram espaço,
alas portas buracos poros
a minha janela
– que me basta –
por ela
– que é inteira –
cinzeiros, borboletas
não mais voam não mais entram:

ruflam asas
explodem, escorregam
se esvaem, se jogam.

minha janela aberta basta-me:
porque só ela agora resta aqui dentro de mim.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

venha ver o verde-pus

espelho lacrimoso:
meu olhar perdido
nas curvas da rua imunda
onde te vejo
– na saliva dos meus olhos suados –
flaneladamente polidos e
despidos de distinções seguras.

prata preteada
a rua
que só roda
a tua volta
em teu entorno:
ela caminha em ti!
[e também te sufoca?]

eu toco o oco
das minhas pupilas
dilatadas, convencidas
que nos vemos ambos...vês o verde?
o pus lacrimoso
que me cega as retinas tortas
distorcidas?

não: tudo é cinza.
trouxeste a flanela?
ajuda-me a
polir o verde-pus?
porque seduz
o gosto:

teu desprezo áspero
meus dentes rasgam
tua língua
na rua
a cuspir os versos
que te compus.

domingo, 15 de novembro de 2009

Silêncio, por favor.
Vi a placa, obedeci.
[os ventos vindos do chão, não]

Fecho os olhos: cinza.
Céu e Guaíba: cinza.

Subo no terraço de um dos prédios
mais altos
da beira da cidade:
sitiadamente cinza.

Lama pura
nas águas do lago cor de cobre.
Lama primaveril, resquiciosa
dos vapores das chuvas
que sobem do asfalto quente lá embaixo.

Na rua no alto do piso
altifalante, uma música
feito vinheta pronta
pro Natal entoa
um hino aquoso:
demencial.

Consumo meu cigarro
a longas tragadas de orgasmos
a céu aberto
[e pra ti: cinzas]
onde todos os pássaros
[sem asas como eu, tu:
asperamente sem asas]
me podem ver.

Na lama
da rua
do lago asfáltico
metálico olhei...
tua bocalâmina
de baixo sorria,
pedia [sim: pedias!] que eu
– eu, estrela [só da minha] vida inteira –
mergulhasse
[e pedia tão infantilmente
que quase cedi].

Não fui. Não dormi,
e assim a vida me passa
[pra trás?]:
entre tragos tragadas sorvidas
– em plena primavera quente –
na xícara de louça
nos lábios sedentos
por mais uma gota de suor
noturno: varrido afinal pelos ventos.

[E ainda não é noite
o bastante pra mim.
Ainda é de tarde, na verdade.]

Não vou dormir aqui.
Vulnerável: à mercê da palavra
poematicamente à espreita
de uma fresta entre mim
o que vejo
[Silêncio, por favor]
a ausência
[que cerro nos punhos]
o abismo
[que sorvo aos soluços]
e o sono
[que assusto às fraturas].

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não. A estrela não está em ti
em mim
cintilando dores vazias.

E tão vazias quanto astros
que vemos brilhando
no chão.

E julguei que o astro-mor
fosse tua boca cheia de dentes,
pequeninos: infantis
sorrindo a cada estrela
visível da minha janela.

No subsolo
é que eu moro.
A estrela
aquela mesma que vias...
o vento desfez a poça d’água
onde ela apenas refletia.

sábado, 7 de novembro de 2009

O SOCO

Andava pela rua da praia
quando um sujeito
- sujo o sujeito -
[mendigo ou drogado bêbado desocupado?]
disse: me dá um... dá um...
Eu, claro, nem olhei.

sem vergonha!

ele disse.
e como se ouvisse o que pensei
repetiu mais alto:
S E M V E R G O N H A

Eu?
[eu, que tô de saia,
sem ser puta?]
[eu, que saio cedo
volto tarde?]
[eu, que subo-desço
o asfalto, a lomba
sem riscar o salto?]

Parei, olhei, protestei.
Disse a ele qualquer palavrão.
Ele: ele veio
veio vindo a mim
em mim.

Ri.
Aos risos e hematomas
contei o curioso caso a quem quisesse:
Foste à polícia?
Escreveste ao correio?
Louca louca, por que ris?

Seria bacana,
o cara iria em cana
eu riria em casa, na cama.
Tudo [o pouco] isso
viraria notícia, crônica.

Não. Não é bem isso o que procuro
o que proclamo.
Eu rezo, meu Deus, por um gesto
qualquer um que seja
de protesto.
Dou meu humilde corpo
a um vagabundo, louco
e peço: vem, me bate
bate forte: eu mereço.

porque eu também protesto.
Eu?
[que carrego sobre mim o peso de ser
quem eu penso que posso ser:
e isso não é nada]
Eu?
[que na cama derramei o gozo
falso
por alguém que não me ama]
Eu?
[que parto apressadamente
de qualquer parte]
Eu?
[que nem sou parte de
um todo que é parte de
algo que é
parte de mim]

Eu, tão pouco
que me faço
ou fazem de mim,
rio: sou tudo
no sufoco de um outro
corpo, pra quem gritar já não basta.

Estou a serviço do soco.

sábado, 31 de outubro de 2009

dos balanços

Na praça
a criança
no balanço
voa.

Voa acima
Voa abaixo
de mim.

O abraço
das pernas
que laçam
a sombra

que sobe
que desce
em mim.

Meu braço
embala
o balanço
o abraço
que enlaça
a criança
que sonha
que ri.

================================

Conhecendo o céu,
sou incapaz de sentir a terra.

Caí do balanço
E sinto o chão: duro
doendo em minha cabeça.
Mas eu não vejo a terra.

Não.
O balanço caiu de mim
Está no chão impuro,
impróprio pra ele:
desconhece o papel
de levar quem queira
como eu
ao céu.

Balanço não pensa
Por isso passo pela praça
e peço-lhe:
"Leva-me daqui!
Consegue um traumatismo
mas não pra ti".

E dele tombam pessoas
que nele sentam - como eu -
predispostas à queda
sutil? veloz?
quando julgam abraçar
com pernas,
tocar o céu
ou o único que resta:
o ar.

Caio. E preciso de mais e mais
um cleck arrebentando
a corda
um estrondo partindo o assento
no chão da praça.

Mas o céu continua em mim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

o silêncio, a ausência: o branco.

dizem que branco não é cor, é a ausência.
mas eu enxergo o branco...
as nuvens existem também, porque as vejo, as toco, as beijo.

[a ausência pode significar mais do que a presença]

meu sabonete é branco;
minhas paredes
meus globos oculares
meus poros
cada-vez-mais-brancos.

[não vês o branco presente no céu cinza - que eu vejo -
no céu onde voam aviões brancos, levando e trazendo as gentes que se desencontram
que se ausentam sempre de alguém
as gentes brancas]

meus cabelos:
um dia brancos
[quando?]
Das Dores: branca
[repintada muito recentemente]
meus sorrisos metálico-brancos.
e até o meu cigarro é branco.

[o branco tá na folha que repousa na minha escrivaninha,
me olhando - à espera de tinta que a preencha?
o branco tá em tudo. é mais econômico fazer as coisas em branco?
ou poque sem o branco nada seria nada? ou ele existe para que possa,
ele sozinho,
ser o nada sem deixar que nada além dele seja o nada?]

sim, a fumaça do meu cigarro - que alguns veem azul -
eu a vejo branca. não: azul e branca.
o céu azul, Das Dores branca.
a agonia do moribundo enxerga branco.
os cegos passaram a enxergar em branco.

não as fotos que eu
as prefiro branco e preta
à preto e branca.
branta - prebro - prebra - branto
o que já rima: pranto
não: alento, tormento.
eu aguento o pranto
[com meu silêncio preto]
porque sou hoje toda branca.