segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dóris Regina Nogueira - IN PROCESS

Ia passar o final de semana fora de casa. Bom, já era uma evolução e tanto, uma grande experiência, um teste. Botei no cd player um álbum de salsa, "Lo Mejor de la Salsa", segundo dizia o encarte. Como sempre fazia antes de sair, metodicamente, separei primeiro a roupa com que iria, depois todos os itens de que ia precisar.

(A diferença é que, dessa vez, a tarefa, mais rápida, exigia somente a metade de mim.)

Poucas, pouquíssimas coisas. Interessante, que aprendi, quem sabe, a sair mais desprendida, aprendi a selecionar com mais afinco o que realmente queria levar comigo. E tudo o que deixo, ainda que não mais que momentaneamente? Deixo-o, deixando-o, no entanto, cuidado.

(Quantas coisas de ti. Não te nego, Cássio.)

Salsa. Ao som alto, respirei, estiquei a cama, estendi a roupa que bailava salsaritmicamente na máquina, lavei a louça, varri o piso. Senti um poder interessante, um instante de tudo o que nunca fui. Diferente e especial: a saída e tudo que se leva com ela é o de menos - na chegada reside a mágica da vida. 

(Também chamaria de volta, não fosse a diferença de a volta ser ainda um pouco mais interessante. No não-inesperado moram os enganos.)

Na verdade, saía e voltava com o que tenho de mais importante.Sempre estive comigo mesma. Terminei o serviço que me impus sentindo-me como dona do meu próprio ninho, contrariando qualquer princípio feministicamente falando. Um antifeminismo me tomou, poderosa como um batuqueiro se sente.

(O Cássio me provou que todo batuqueiro é poderoso. Mais ainda os de batuques feitos na praia, de pele negra como os deuses africanos de reinos tão distantes que já cansamos de tentar saber sua verdadeira história. Ouvindo-a, dormia em seu peito cru, lugar para onde, nem sempre sabendo o valor disso, tantas vezes me acostumei a voltar.)

Preparado o ninho, estrategicamente pensado em relação ao bem que seria  para ele voltar (o único lugar que, mesmo sem saber, sempre tive de verdade),  fechei a porta, varrida pelo vento dos finados, voltei à praia.

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Fanzine Episódio Cultural disse...

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