quarta-feira, 28 de julho de 2010

DIÁRIO DE CÁSSIO SOUZA ANTUNES

1

Cheguei em casa. Tinha perdido a noite. Paciência, ao menos não tava bêbado. Tirei a roupa, depois dormi o dia inteiro. Acordei, desci até o boteco: dois pastéis de calabreza (sim, e sem quem me enchesse o saco por isso). Bastava reestabelecer os níveis de gordura no meu organismo, mais um latão de cerveja... Depois aquela tevezinha. E me assaltou de repente a lembrança desagradável da madrugada, que eu julgava superada. Filha da puta! Não tinha nada a ver ficar conversando com aquela maluca... em vez de estar longe, já em outro lugar comigo (e sem o maldito vestido desbotado dos botões carcomidos), despenteada e desabotoada, falava em incensos indianos, almofadas de seda! Em que mundo essa louca vive? Deu até vergonha, baixei minha cabeça, e a gordura pingou no pratinho de inox. Em que mundo eu vivo?

- Oi?
(Sim, um ser prostrou-se diante da minha mesa no instante exato e tosco em que procurei me concentrar na gordura do prato, ainda sem saber apreciar devidamente a solenidade de certos momentos, como ingerir quantidades absurdas de gordura, desenhar com o dedo no óleo, sem ter quem me incomodasse.)

- Era só o que me faltava...
- Meus pensamentos agora chamam almas...
- Cadê aquele teu vestido horroroso, jogou no dilúvio?
(Essas coisas todas pensei em uns dois segundos, enquanto mastigava o ar na boca.)

- Hey! (que cínico eu fui!)

- Não sabia que tu morava por aqui...

(- E eu não sabia que com esse decote aí a pessoa já muda...)
- Pois então, moro aqui em cima. E tu?

- Moro na rua de trás, tava passando e te vi aqui. Desculpa, é Cássio, né?

- Uhum. Desculpa, eu não me lembro...

- Dóris (sorrindo). O que servem aqui?


2


- Depende. O que tu quer comer?

(A Dóris, deu pra perceber, era bem atinada até. Ligeira, objetiva, mas também de uma capacidade incrível pra enrolar, dizer sem dizer as coisas...)

- Ah, desculpa, nem te convidei... senta. 
(E ela olhava em volta com uma cara... Bom, por mais que ela parecesse diferente da noite anterior, a começar pela aparência, bem mais apresentável, eu já não tava preocupado.)

- É que eu não como gordura... Será que servem alguma coisa mais natural? Mas deixa, eu não tô com fome, fico até tu terminar.

(Audaciosa também, sem nem saber se eu queria que ela ficasse. Eu também já não sabia mais se não queria, tava bonito de ver seu esmalte, em tão pouco tempo, já roído. E ela ainda tinha olheiras. Será que não dormiu? Não sei por quê, esse tal ar decadente me despertava alguma coisa.)

- No que tu tá pensando? 

- Se tu ao menos quer um gole da minha cerveja, se não vai comer...
(E ela já segurava meu copo com as duas mãos. Engoliu o líquido com um prazer vagaroso.... )

- Hahahahahahahahahahaha. (... e como uma cigana ela riu alto.)

(Eu só podia estar dormindo ainda. Comecei a me sentir mal, fisicamente mal com a presença daquela mulher. Que domínio se abateu sobre mim? Eu não queria nada. Juro que desci pra comer e voltar, não fiz a barba, não pus perfume, não troquei a bermuda surrada de andar em casa, nem sequer tinha tomado banho ainda depois da ressaca moral.)

- Que foi? Te assustei? Desculpa, sou rápida às vezes. (Com ternura na voz, de verdade. Que merda.)

- Acho que não tô me sentindo bem.

3


Acordei e fiquei apavorado quando vi a Dóris sentada numa cadeira, do lado da minha cama.

- Fiz um chá pra ti.

- Odeio chá. Hmm, desculpa, brigado.

- Posso tomar?

- Uhum.

(E minha curiosidade cedeu à beleza do momento. A xícara que segurava aquelas mãos! Ficaria em silêncio, mas ela queria falar.)

- Tu passou mal mais cedo ali no bar. Disse que não tava bem e caiu.

(Que bichona.)

- Daí eu te trouxe.

(Até pensei em perguntar como ela sabia onde eu morava, mas pra quê? Essa mulher já sabia de tudo. Se já não sabia, adivinhou.)

- Bah, valeu mesmo. Se tu quiser, pode ir... Desculpa aí, isso nunca que aconteceu antes. Que bichona!

- Imagina, tava ótimo ficar aqui, já deu pra ver um monte de coisas tuas.

(Gelei. Essa louca agora vai me matar? Será que ela.... ai, ela me envenenou, deve ter planejado tudo... já sabia onde eu morava!)

- Tô brincando, tá? Nem teria dado tempo, tu dormiu só meia hora.

- Capaz! Claro que tu tava brincando.... Acho que preciso de um banho. Que horas são, hein?

- São nove e meia. Então vai tomar teu banho, daí me despeço e vou. 

- Tá.

- Posso ligar o rádio?

- Claro.

Todo lo que vi está demás
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabes comprender
Que es solo un rato no más
Tendría que llorar
O salir a matar


- Ahhh, Cássio! Tu gosta de Fito?

- Quêêê?! .......... Não tô te ouvindo....

(A Dóris entrou banheiro a dentro.)

- Tu gosta de Fito?

- Aham.

(Eu teria dito que gosto do Cauby naquela hora! Mas era verdade, eu adorava.)

- Vou deixar aberto aqui então pra tu ouvir. Adoro essa música!




Te vi te vi te vi
Yo no buscaba a nadie y te vi

Te vi fumabas unos chinos en madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
No hacias otra cosa que escribir
Yo simplemente te vi

Me fui
Me voy de ves en cuando
A algun lugar
Ya se no te hace gracia este país
Tenias un vestido y un amor
Yo simplemente te vi



4


Tomei o tal do banho feliz da vida. Na sequência, ia rolar um sexo, já tava mais do que certo.
(Eu ainda não tinha pegado a manha. Era ela que decidia.)
Quando saí do banho, sorridente, de toalha (e imaginando-a nua, me esperando na cama), ela estava de pé, com a bolsa, pronta a fazer o que tinha dito: se despedir e ir embora. Me saudou com um beijo no rosto e se foi.

E foi pior do que na noite anterior. Vagabunda.
Eu não disse nada. Fiquei uns cinco minutos parado, me lamentando por não ter sequer perguntado direito onde ela mora (se é que era verdade o papo de morar na rua de trás), por não ter pego um contato.

Sim, o palhaço ainda queria ver a filha da puta.


4 pitacos:

marquito! disse...

ducaralho!!!! adorei!!! e virei fã desse tal de cássio antunes. já to esperando o próximo registro no diário, viu?

Carolina. disse...

:D

agora o compromisso tá maior!
vou precisar de um mês pra conseguir encontrar uma nova forma de o casal se encontrar... e a Dóris finalmente dar pro cara!
ó, talvez esse evento venha no diário da Dóris, não no dele. O problema é que ela escreve dum jeito que não tô conseguindo mais :(

Sucedeu assim disse...

eu tô adorando essa coisa toda. tu escreve bem pra caralho,carol (:

Madame R disse...
Este comentário foi removido pelo autor.